quarta-feira, 15 de julho de 2009

Páginas em branco

Tantos pecados, sonhos partidos, pensamentos deixados apara trás, amores, paixões, dores: esquecidos no tempo. Todos estamos esquecidos no tempo que corre fluído seguindo o seu caminho e nos deixando para trás. Sózinhos. Com frio. Não há aparente salvação.Perguntamo-nos se isso tudo vale de alguma coisa. Nunca chegamos a ouvir a resposta. Não seguir em frente não é uma opção, então seguimos. Desesperadamente seguimos,doemaos, amamos, pensamos, sonhamos, pecamos e deixamos tudo para trás.
Ela olhou apenas de canto de olho. Sabia do perigo e queria corre-lo. Ele já estava perdido nesse momento, mas nunca faria nada a respeito. Em respeito a alguém, mas não estava certo de quem. Ela notou o quão desajeitado ele ficou, percebeu o interesse e sorriu. Ele pegou. Não há porque fazer isso consigo, mas eles o fazem. Tortura vã. Sorrisos e olhares que fogem e se cruzam. E nada, absolutamente nada, nunca vai acontecer. Como somos tolos, não é mesmo?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Fado

Estive pensando. Longe demais para qualquer um me alcançar, mesmo para quem estava perto. Demorou muito para conseguir voltar para cá, não havia estrada coberta com migalhas. Na verdade existia. As minhas migalhas, pedaços meus: duros de se acompanhar. De se olhar. Não voltei ainda, mas já vejo que tudo mudou. Tudo saiu de seu lugar, inclusive eu. As peças se moveram em direção a um ataque fatal, mas todos abandonaram as posições de defesa também o que quer dizer que nesse xadrez tudo está em jogo. E alguém tem que perder. Eu, à distância, consigo ainda ser cauteloso. Hei de pagar por isso. Você pagaria comigo?
Existem muitos desertores aqui, onde eu estou, perto-distante. Alguns fantasmas, alguns amigos, alguns Homens, outros nem tanto. Eu estou caindo aos pedaços. Desmontando membro a membro. Parte por parte. E eu não sei o que fazer. Bem, da vida, agora, eu sei; não sei escapar do fado. Sim o fado, canto português que dói na alma dos homens. Porque aqui não há mais fardo. São decisões faladas apenas e podem ser revogadas com o mesmo poder que as proferiu, o das palavras.
Queria dizer que nada restou. Nada resta, que quando eu comecei a cair: aquela parte caiu e esse frangalho de gente que você encontra diante de si já não tem a parte que lhe interessa. Mentira. Muito resta, o que não existe é vontade. Seguir em frente parece sem sentido. Mesmo com você. Tudo são lágrimas hoje em minha vida e mesmo sem eu querer todas vertem para mim. E pesam sobre meus ombros, mesmo as que eu nada me relaciono com. Mesmo assim não há fardo aqui. Porque o burro que sempre carregou a carroça não a considera mais um fardo, ela é a vida. Não um fardo, não mais. Eu sou o burro e o rio das lágrimas em cuja margem vivo e sempre viverei é minha carroça. Posso até verter algo para enche-lo um pouco mais, posso até morrer afogado em sua enchente. Mas esse é o meu lugar e meu lugar não pode ser [mais] um fardo. Para isso o fado. O choro cantado. O sonho chorado. O coração amaldiçoado. O mundo parado.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As noites insones voltaram. Como nos anos passados quando tudo estava por desmoronar. Isso é viver em seu limite, uma hora tudo desaba e a culpa é somente sua. Você paga. Não há opção. Ele sabe disso e está dividido entre o passado e o não passado. Consertar o que foi quebrado ou desistir do passado? Ele estudou o passado, morou lá por muito tempo. Pagou muito caro por pecados que não eram os seus. Abandonar tudo é difícil. Se jogar a maré é algo que apenas poucos iluminados podem. Ele sempre quis, nunca conseguiu.
Um cigarro aceso na mão solta sobre a perna que a outra mão abraça. Luzes apagadas. Lua alta: cheia. Mente povoada que a música evanesce, leva para longe junto do vento que a faz desaparecer na infinitude do horizonte. "Me cura!", ele pede saindo do ritmo mas mantendo a letra, "de uma loucura qualquer.", se explica para ninguém.
"Tudo bem", a música continua e lhe traz algum conforto. "Está tudo bem em se sentir perdido às vezes", pensa. Ele anda muito perdido ultimamente, tateando no escuro, sua vida ele parece estar seguindo em frente. Mas parecer nem sempre é estar. Todo mundo tem medo disso. Não é mesmo?

terça-feira, 26 de maio de 2009

Se eu fosse um desenho, eu seria algo meio roto: traços fortes, bem expressivos, sem cores, mas muitos riscos, quase um rascunho, mas não de verdade porque um rescunho se pode jogar fora. Não sei se faria sentido ou formaria uma imagem, talvez nem precisasse fazer/formar. Não seria um estudo geométrico de forma alguma, apesar de você encontrar, se completar mentalmente as linhas, tudo lá. Se eu fosse um desenho no meio desse emaranhado de linhas fortes, haveriam algumas bem leves, suaves e delicadas, feitas com um lapis duro quase não tocando o papel, e essas linhas são praticamente invisiveis. Eu [o desenhos ou seu observador] não sei lidar muito bem com elas, mas é importante que elas estejam ali, provando que mesmo num mundo branco e preto existem tons de cinza que se você não prestar [muita] atenção evanecem na imagem maior, que é tão importante quanto suas partes. Porque esse desenho apesar de formar uma imagem maior coesa é como um pedaço de vidro estilhaçado, e pode ser visto por partes apenas e elas formam um nexo prórpio, que, as vezes, até contradiz o nexo maior, mas isso é um outro problema.
Bang bang, I shot you down
Bang bang, you hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, I used to shoot you down.

Music played, and people sang
Just for me, the church bells rang.
Now he's gone, I don't know why
And till this day, sometimes I cry
He didn't even say goodbye
He didn't take the time to lie.

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Eu queria saber falar. Porque eu não sei. Mas se eu soubesse eu diria: "Não acredite na verdade". A verdade é uma mentira esperando por acontecer, para você crer. Se eu soubesse falar eu não diria nunca coisas importantes, não falaria sobre grandes sentimentos ou coisas, não pensaria em nada maior do que uma formiga, porque nada disso realmente importa. A maioria de nossos atos são controlados por sinapses nervosas que acontecem dentro do nosso cérebro com particulas infinitamente menores que a cabeça de um alfinete, então eu me pergunto, porque falar de amor? Qual o tamanho do amor? Qual o tamanho do seu amor? Qual o tamanho da sua admiração? Para que falar sobre livros? Porque pensar a realidade, sendo que ela não existe na verdade.
Como se mede o que não pode ser medido? Como se fala o que não pode ser dito? Como se aproxima do animal em si? Como se pensa sobre coisas que nada valem hoje em dia.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Me esquecer é facil, ésónãopensaremmim ... !

Um sorriso. Uma atitude tão simples, um gesto tão facil, um sonho tão doce. Por que será que eu não quero mais sorrir? É tão facil não se deixar cair, mas minhas forças acabaram quando você passou por aquela porta imaginária que separa o aqui do lá, o eu de você. Bang Bang You shot me down Bang Bang I hit the ground. Ouvir música, assistir aos filmes que você gostou e eu nunca assisti, não arrumar minha casa. Manter o tempo suspenso ao invés de matá-lo, quem sabe assim você não fica aqui mais um pouco, não é mesmo?
Mas você já foi e os mesmos padrões ficam se repetindo, de novo e de novo e de novo na minha mente. No meu coração. Eu quero pensar em outra coisa, eu preciso na realidade, mas não consigo, não sai da minha mente. NUNCA. Engraçado. Achei que estava ótimo. Então eu percebi meus amigos tomando conta de mim. Me mantendo ocupado sempre que eles estão livres, me trazendo comida, porque eles sabem que se não trouxerem eu simplesmente não vou comer, combinando programas em cima da hora. É engraçado, sempre me achei tão forte e mesmo quando eu acho que estou segurando a ponta aquela pessoa que mais te conhece te saca. Te entende e segura sua onda. Eu não sei se ela acha ou mesmo está querendo ser discreta, mas é o que eu acabei de te falar... a pessoa que mais te conhece, ou as pessoas que mais te conhecem, te saca(m). E você é pego com a guarda baixa...
Mesmo que você não queira eles estão ali, por você para o que der e vier... pro bem e pro mal... para os altos e principalmente para os baixos. O pior: você não deveria estar num baixo, mas você está! Você se policia mentalmente? Você conta a total e absoluta verdade para estranhos para eles acharem que é mentira e mesmo assim considerarem que você está se esforçando e dai confiarem em você? Não tem como eles confiarem e não tem como desconfiarem também! É estranho. Não tem como eles confiarem porque foi feito para parecer uma mentira, mas não tem como eles desconfiarem também porque mesmo contando "uma mentira" você não deu nenhum sinal de que estava mentindo, nenhuma piscada, nenhuma exitação, nada. Isso deveria fazê-los não acreditar em você, mas não faz, porque de algum jeito estranho, mesmo eles relutando no fundo você já contou toda a verdade. E a gente sabe ler isso nas pessoas, especialmente nos estranhos. Especialmente em quem não tem nada a perder com você.
Sentimentos são complicados, mas não deveriam ser! Eu quero gritar, eu quero correr, eu quero ler , quero estudar, quero escrever, quero sorrir... E NÃO CONSIGO. Deus, qual é o problema com você? São coisas simples... você deria conseguir. Nada nunca dura você já sabia disso. Sempre soube. Então por que te pegou agora? Por que... ?! Porque... ?! Cigarros empilhando no cinzeiro e eu tentando esquecer de mim, querendo gritar, correr, ler , estudar, escrever, sorrir

... e não conseguindo ...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Eu tive um sonho

Eu tive um sonho, um sonho onde palavras de uma folha de fichário, escritas em uma noite diferente, tomavam forma e me golpeava, deixando uma sensação diferente no meu peito.


Neste sonho eu conseguia sentir o gosto da mágica em meus lábios, tornando me parte de um todo, que não imaginava existir em minha vida. Mas isto não era o melhor e mais intrigante, o melhor foi poder sentir que a partir de certo ponto de minha existência, consegui-me ver como parte desta mágica e que agora, sendo parte desta, a sensação de também fazer parte do todo me doía na alma e conseguia ver essa minha dor estampada nos olhos que não eram os meus.
Por um dado momento, quando tudo parou, todos os planos caíram por terra e todas as escolhas foram revistas, finalmente pude entender o verdadeiro sentido da vida.


Não me lembro do exato momento de minha concepção no ventre materno, mas a sensação que tive neste sonho deve de chegado bem perto, foi um nascimento para uma realidade que nunca tinha me deparado, alterando, movendo tudo e sem prévio aviso o fundo castanho desta nova percepção toma um novo rumo e parte deixando-me novamente sem resposta e desta vez, apenas as estrelas sob meus pés.


Desta forma restou-me apenas a longa e a dolorosa caminhada de volta consciência, e novamente estava acordado...mas ainda podia sentir.

E foi assim, esse meu sonho.

Boa noite.



P.S. Esse sonho...não foi sonho!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Espero

Espero que você não tenha esquecido de nosso compromisso. O mundo ainda espera, ele é sábio e, ao contrário de mim, sabe esperar o tempo que for. Paciência é uma virtude que vem junto da sabedoria dos anos, é por isso que os jovens têm tanto anseio em mudar o mundo. É por não tê-la que eles mudam alguma coisa, mas só perceberão isso em sua maturidade. Sou jovem e não vou esquecer, absolutamente nada, é por isso que espero estar mudando o mundo, e é por isso que espero que não tenha esquecido de nada quando estava aqui. Muita coisa vai mudar, mas no fundo tudo vai continuar o mesmo e eu vou continuar esperando. Será que isso é conplacência? Acho que não, talvez seja sabedoria, mas quem define sabedoria não sou eu. É o mundo.Então continuo esperando tudo acontecer, eu e o que eu quero. Você e a sabedoria lhe alcançar com seus dedos longos que chegam bem longe. Bem longe de mim.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

"O medo é um sentimento que está asociado a outros sentimentos, pois é tão medroso que tem medo de ser sozinho, e ai nasceu o amor"

(R.T.)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Porque existo

Por que existo?

Se não existisse, saberia disso?

Será que a vida é um breve existir?

Breve existir, existir consciente da existência e do limite da existência consciente.

Existir consciente do existir agora, sentir-se consciente da existência agora pelas sensações...dor.

Há também felicidade, amor....mas a dor! A dor nos faz conscientes da nossa existência no agora como nenhuma outra sensação.

Por isso a dor é tão essencial quanto o amor, aliás, só se consegue amar depois de se conhecer a dor. Porque só depois de experimentar a dor, se torna possível reconhecer o oposto...

O amor é a dádiva para quem é capaz, capaz de suportar a dor...ama apenas quem é capaz de amar.

Você ama?

Você sabe amar?

Você sabe o que é o amor?

Você sabe porque do amor? Eu sei!

Por isso existo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Paris

O dia finalmente nasceu e London com um pé na frente do outro sai da floricultura azul da Rua dos Ingleses. Ela sabe o que deve fazer agora, mas não está exatamente certa a respeito de como fazê-lo, mas isso não lhe importa na verdade. Ela desliza vagarosamente pela calçada, como se tivesse todo tempo do mundo. Alcança seu carro, pega as chaves e parte em sua tarefa, melhor não dormir, ela sempre pensa melhor antes de dormir do que depois de acordar. Acabada a festa José apenas se levanta de sua cama no fundo da floricultura, ele se levanta resoluto a fazer aquele lugar brilhar, na manhã citadina ensolarada aquela floricultura estará belíssima. José entra na loja apenas para ouvir o sino avisando que sua patroa acabara de sair pela porta, ela nem se lembrara de trancar sua loja, os ramos dançam para ele, as flores cantam e ele começa a limpar a loja cantarolantemente feliz.
A cidade finalmente se agita, mas não graças aos gritos sem voz de nossos dois companheiros. "Acho que exageramos", diz a voz rouca semi-anciã. "Muita coca?", responde baixo a jovem finda voz. E os dois gargalham no meio da rua. Não lhes importam mais suas perdas, seus sonhos despedaçados, suas noites em claro. "Bem, meu caro, foi um prazer. Mas com o dia eu devo seguir trabalhar e você precisa dormir até o dia morrer novamente", diz o primeiro depois de alguns minutos. O garoto de uns vinte e poucos anos lhe aperta a mão, lhe abraça e com um olhar sorridente lhe agradece. O ancião desce a ladeira, pelo meio da rua, e o garoto sobe. Eles se encontrarão novamente, em algum lugar de suas vidas, mesmo que esse lugar seja apenas suas memórias.
London estaciona em frente a um antiqüíssimo prédio na Rua Naif. Ela passa meia hora só olhando para a portaria até ter coragem de ir até o porteiro, que se encontra do lado de fora do prédio agora, mas ela não vai. Ela tira a mão da chave finalmente, isso foi difícil. Quinze minutos depois ela encontra a força para tirar a mão do volante. "Deus, como é difícil se mexer". A mão do volante não vai à coxa, como a das chaves, não, essa ruma para a maçaneta. Em apenas três minutos ela está do lado de fora do carro. Com a porta fechada! Olhando para o prédio novamente. O porteiro a reconhece e meneia com a cabeça, ela lhe responde com um aceno breve. Ela não pode, não consegue. London quer pegar as chaves, entrar no carro e ir embora. Novamente ela não vai. Ela só começa a andar, imediatamente, rua acima.
Rua acima também segue nosso jovem amigo, com um cigarro na boca e nenhuma voz na garganta. "Que noite! Sonho de uma noite de verão, só que é outono, ainda assim: Que noite, que sonho...!" Quem se importa? Sua noite havia começado com dúvida e agora terminava com a certeza. Ele caminha certeiro. Sabe que a vida vai continuar e coisas muito piores virão. Ele não está nem ai. Pensando nisso ele começa a dançar ao som de um quarteto de cordas que toca para os clientes de alguma padaria de luxo que oferece ótimos cafés da manhã. "Eu comeria" e ele entra no café mais próximo.
O chão fica ótimo com as pétalas. Para que tirá-las então? José apenas as espalha para que todo o chão fique coberto por pequenas partículas de flores. "O dia-dos-namorados está logo ai, que mal pode fazer um pouco de romance em nossas vidas?" Ele rega as plantas, corta as que precisam ser aparadas, troca a água das que já foram cortadas e sonha acordado com sua falecida esposa, com seu cheiro inebriante, seu olhar hipnotizante, seu amor suado, seu beijo molhado, seus corpos colados... A sineta da porta toca. Ele se vira com um sorriso no rosto e encontra uma menina chorando em sua frente. Roupa em frangalhos, maquiagem borrada, cabelos sujos de terra e folhagem, olhos inchados, boca ensangüentada, hematomas e sangue. Tudo está perdido.
"Não faça um som, entre, compre girassóis e saia, ninguém vai notá-la" London quer ter um presente em suas mãos para encontrá-lo. Antigamente ela só levava um sonho, agora sentia que queria dar-lhe algo mais. A banca de flores mais próxima ficava na Avenida Fellini, então ela caminhou até lá. Conversou com a adorável dona da banca que lhe fez um ótimo preço por ser uma companheira florista nas ruas tão cinza da cidade. E começou seu caminho de volta, com um passo lento novamente ela desliza pelas ruas da cidade, leve como se nada pudesse impedi-la ou lhe atrapalhar. Como se nem o céu pudesse novamente esconder o raiar do sol.
Ele toma seu café sem pressa. Amanhã, ou melhor hoje, não é preciso trabalhar. Ele beberica seu expresso enquanto um sanfoneiro toca do outro lado da praça. A cidade toca pela manhã, a música traz a vida para as ruas e com a vida vem às flores, o amor, o sabor, o calor... Vem tudo, tudo menos London. Será que ela pode ouvir sua música? Será que ele ainda pode alcançá-la a um oceano de distância? Mal sabe ele. "Vai chover" ela lhe disse olhando pela janela, ele tocou gentilmente seus quadris, abraçando-a por trás, beijou seu pescoço e sussurrou em seu ouvido "Vamos sobreviver!", ela não tinha certeza disso, mas queria acreditar. Queria muito acreditar. Então se virou em seus braços, passou as mãos em torno de seu pescoço e o beijou como se aquele fosse o ultimo instante de sua vida. Como se aquele fosse seu ultimo beijo bem quisto.Ela o guiou até a cama, eles se deitaram e fizeram amor naquele momento. Algo lindo e memorável. Por que agora aquelas memórias o atacavam? Ela saiu pela porta e eles nunca mais se viram desde então. Isso foi mais ou menos a época em que ele começou a escrever intensamente. Escrever e beber, como fizera na noite anterior.
Rua abaixo, num caminho sem volta. Ele odeia a própria vida. Odeia seu trabalho, odeia seus amigos... humf... ele não tem amigos. Ao menos não tão sinceros quanto aquele moleque com quem passara a noite anterior. Odeia ter terminado seu casamento, odeia a cidade que o abriga, ele odeia muitas coisas em sua vida. E ele está desesperado. Desesperado ao som de um arcodeon junto da praça central. Que piegas. "Eu deveria tomar um banho". Nosso quaternário colega para em um café, compra uma garrafa de vinho e bebe na praça, sozinho ao som de um acordeon. A cidade de repente não lhe parece tão infernal. "Se embriagar pela manhã para ir trabalhar com o dinheiro dos outros, esse é o sonho de qualquer otário que eu conheço". O tempo demora a passar. Dez da manhã: Ele não quer mais viver sua vida. Tem algum dinheiro guardado, mais do que precisaria para passar uma vida inteira muito bem. "Que se dane, eu não quero mais minha vida..." Vagarosamente ele se levanta e começa a andar. Sem acordeons de fundo, sem quarteto de cordas ou metais ele simplesmente se levanta e começa a andar, dando as costas para sua vida antiga, se perdendo nas ruas da cidade.
Ela finalmente alcança o prédio de apartamentos novamente e agora ela tem coragem para falar com o porteiro. Ele não está. Passou a noite fora e ainda não voltou. O olhar dela cai entristecido. "Tudo bem". Ela volta para o carro. Ela deveria seguir em frente. Não vai. O tempo passa e seu olhar está fixo na portaria. Seus olhos estão pesados. Seu coração, tão triste. Ela adormece em seu carro. Sonhos conturbados de uma vida que nunca existiu. O tamborilar das gotas de chuva a acorda. Já passa do meio dia. Pingos grossos caem sobre a cidade. Ela pega seus girassóis e ruma novamente a portaria. "Ele ainda não chegou, querida. Mas você gostaria de entrar?". Ela permanece sozinha na chuva no meio da calçada.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

London

Dois estranhos caminham por uma rua estreita, lado a lado sem falar nada eles se compreendem e de um jeito estranho conversam ininterruptamente um com outro. A cidade pode ser sorrateira, às vezes ela nos derruba sem expectativa nenhuma da queda. "As melhores conversas, às vezes, acontecem em silencio", como essa. Não é um monólogo, em que cada pessoa esperando pela sua vez de falar, não... É uma enorme conversa em silêncio. Ao contrario do que podemos pensar não é aquele silêncio estranho causado pela falta de intimidade, não... Eles só... Optaram por não dizer nenhuma palavra apesar de estarem em completo entendimento. Eles bebericam em uma garrafa empacotada com uma sacola de papel e seguem em frente, pensando em conjunto sobre a vida, o amor, deus, o diabo, coisas desse gênero: vago. 

Do outro lado da cidade uma garota entra em uma floricultura a meia noite, ela abre a porta com cuidado e caminha por entre aquele ambiente cheio de cheiros e sabores esperando por um milagre, como se aquelas fragrâncias pudessem purgá-la de suas fraquezas. Como se ela pudesse, a partir daquele momento acabar com todos os seus problemas. Mas ela não pode. Ela para por um instante. Senta, abraçando seus joelhos no centro da loja. E chora em silêncio. Uma pétala de rosa toca seu ombro. Outra seu ventre. Outra seus cílios. Outra seus joelhos. Está chovendo pétalas de rosas dentro da floricultura azul da rua dos ingleses e onde uma garota chorava em silêncio outra sorri, em seu lugar, sonoramente deslumbrada. Agora ela cantarola. E José, o zeloso zelador que fora acordado por sua patroa que se esqueceu de sua presença na loja, não se importa que amanhã ele limpará toda a sujeira que ele causou e ela nunca imaginará que aquilo não foi exatamente um milagre.

José gosta da magia da vida, mas na sabedoria de seus sessenta e tantos anos ele perdeu a esperança nela. Bem não completamente. Manter a crença dos outros viva, a todo o momento é a sua maneira de ainda acreditar nela. Ele nunca dirá isso a ninguém até um dia lindo de outono quando ele sentir o dedo frio da morte se aproximar de si. Então ele contará seu único segredo a uma enfermeira frigida que não lhe dará ouvidos. No dia seguinte ele morrerá sabendo que seu legado para seus netos e seus bisnetos foi manter a magia viva em algum lugar onde ela deveria estar morta há muito tempo.

E aqueles dois se embriagam e caem pelas pequenas e labirínticas ruas da cidade. O velho se apóia em uma enorme lata de lixo e vomita ao seu lado, o jovem ri e lhe toma a garrafa. Vazia. O dia deveria amanhecer em algum momento. A rua termina em outra. Eles estão cansados, há muito tempo eles caminham sem rumo. Sem dizer nada eles simplesmente se sentam a sarjeta, trocam a garrafa às vezes, mas nunca palavras. Não seria necessário. Os olhos de nosso amigo que acabou de vomitar incham. Ele está muito bravo com sua perda e quer chorar, mas ao invés disso ele se levanta em um pulo e grita a plenos pulmões. "Ele quer acordar a cidade e mandá-los todos explodirem e o deixarem em paz" o outro pensa. Ele grita, e grita e grita e grita e grita e grita e grita. A cidade não se move, seu sono está intangível a voz de um único homem. O outro se levanta, joga a garrafa para muito longe, ladeira abaixo, e corre em auxilio de seu novo amigo que já está cansado e quase sem voz. 

"Aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh....."

Ela gira sobre seus pés. Como se a chuva de pétalas continuasse para sempre ela fecha seus olhos e se imagina em um mundo perfeito. E ao abrir os olhos ela olha cada detalhe, cada falha, cada erro em sua loja, em sua vida com mais paixão. Essa menina acaba de descobrir que ela não poderia viver em um mundo perfeito porque ela ama demais cada pequeno defeito que faz da vida a vida, da vida a beleza. Ela se senta novamente sobre o chão de rosas e enquanto brinca de pegar, erguer e soltar infinitamente as pétalas reflete sobre como acertar as coisas erradas que a incomodam.

domingo, 25 de janeiro de 2009

A Paz Que Eu Nao Quero

Me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo!!!!
Mas, por favor, não me deixe sentar na poltrona no dia de domingo...
Porque eu quero procurar novas drogas de aluguel neste vídeo coagido!!!!

Porque isto está nos impedindo rimar romã com travesseiro.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Talvez eu seja a personificação do enigma,
 talvez você 
seja da poesia.
Eu já não sei mais
quem eu sou
e quem é você.
Eu já não tenho letras,
nem poesia em mim.
Tudo se foi,
para longe, não muito longe.
Os lábios ardem,
o peito se esvazia,
a memória desaparece.
Tudo tende ao nada,
menos eu
e você.
E você?
Estamos indo há algum lugar.
Acho que não quero saber onde.
Nem como.
Nem com quem.
Só queria ir.

O olhar perdido já não mais se encontra ali. As noites insones as vezes o alcançam, mas ele sabe como esquivá-las ou mesmo ignorá-las. Anos de treinamento, prática vazia. Ele pensa demais. A maioria das pessoas simplesmente não o fazem. 
Ele gostaria de saber tudo, mas na verdade não sabe nada e tem consciencia disso: "controle é uma ilusão". Ainda assim ele tenta e tenta. 
As vezes parece incansável, ele se machuca e simplesmente levanta, gentil como sempre foi, sorri e caminha em direção ao próximo machucado. O que mais se pode fazer?
É tão estranho assim ele estar tão perdido? É tão estranho assim ele não saber? Ele foi criado para ser um tigre. Dominar o mundo. Ser o senhor de seu destino e desapareceer da vida que o criou. E agora ele se pergunta se é isso mesmo o que ele quer. Ou ele quer só ser feliz? Mas o que será ser feliz? Ele nunca foi treinado para ser feliz! Felicidade parece um sonho distante só permitido aos outros. Ele nunca se deu ao luxo de sonhar em sê-lo e derrepente é tudo o que ele quer. Nada mais importa, o mundo, o dinheiro, o trabalho, os estudos... nada só esse conceito abstrato e distante. A maioria das pessoas quer isso. A maioria das pessoas procura por isso. Ele não sabe por onde começar. Não tem nenhuma idéia.