sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Espero

Espero que você não tenha esquecido de nosso compromisso. O mundo ainda espera, ele é sábio e, ao contrário de mim, sabe esperar o tempo que for. Paciência é uma virtude que vem junto da sabedoria dos anos, é por isso que os jovens têm tanto anseio em mudar o mundo. É por não tê-la que eles mudam alguma coisa, mas só perceberão isso em sua maturidade. Sou jovem e não vou esquecer, absolutamente nada, é por isso que espero estar mudando o mundo, e é por isso que espero que não tenha esquecido de nada quando estava aqui. Muita coisa vai mudar, mas no fundo tudo vai continuar o mesmo e eu vou continuar esperando. Será que isso é conplacência? Acho que não, talvez seja sabedoria, mas quem define sabedoria não sou eu. É o mundo.Então continuo esperando tudo acontecer, eu e o que eu quero. Você e a sabedoria lhe alcançar com seus dedos longos que chegam bem longe. Bem longe de mim.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

"O medo é um sentimento que está asociado a outros sentimentos, pois é tão medroso que tem medo de ser sozinho, e ai nasceu o amor"

(R.T.)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Porque existo

Por que existo?

Se não existisse, saberia disso?

Será que a vida é um breve existir?

Breve existir, existir consciente da existência e do limite da existência consciente.

Existir consciente do existir agora, sentir-se consciente da existência agora pelas sensações...dor.

Há também felicidade, amor....mas a dor! A dor nos faz conscientes da nossa existência no agora como nenhuma outra sensação.

Por isso a dor é tão essencial quanto o amor, aliás, só se consegue amar depois de se conhecer a dor. Porque só depois de experimentar a dor, se torna possível reconhecer o oposto...

O amor é a dádiva para quem é capaz, capaz de suportar a dor...ama apenas quem é capaz de amar.

Você ama?

Você sabe amar?

Você sabe o que é o amor?

Você sabe porque do amor? Eu sei!

Por isso existo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Paris

O dia finalmente nasceu e London com um pé na frente do outro sai da floricultura azul da Rua dos Ingleses. Ela sabe o que deve fazer agora, mas não está exatamente certa a respeito de como fazê-lo, mas isso não lhe importa na verdade. Ela desliza vagarosamente pela calçada, como se tivesse todo tempo do mundo. Alcança seu carro, pega as chaves e parte em sua tarefa, melhor não dormir, ela sempre pensa melhor antes de dormir do que depois de acordar. Acabada a festa José apenas se levanta de sua cama no fundo da floricultura, ele se levanta resoluto a fazer aquele lugar brilhar, na manhã citadina ensolarada aquela floricultura estará belíssima. José entra na loja apenas para ouvir o sino avisando que sua patroa acabara de sair pela porta, ela nem se lembrara de trancar sua loja, os ramos dançam para ele, as flores cantam e ele começa a limpar a loja cantarolantemente feliz.
A cidade finalmente se agita, mas não graças aos gritos sem voz de nossos dois companheiros. "Acho que exageramos", diz a voz rouca semi-anciã. "Muita coca?", responde baixo a jovem finda voz. E os dois gargalham no meio da rua. Não lhes importam mais suas perdas, seus sonhos despedaçados, suas noites em claro. "Bem, meu caro, foi um prazer. Mas com o dia eu devo seguir trabalhar e você precisa dormir até o dia morrer novamente", diz o primeiro depois de alguns minutos. O garoto de uns vinte e poucos anos lhe aperta a mão, lhe abraça e com um olhar sorridente lhe agradece. O ancião desce a ladeira, pelo meio da rua, e o garoto sobe. Eles se encontrarão novamente, em algum lugar de suas vidas, mesmo que esse lugar seja apenas suas memórias.
London estaciona em frente a um antiqüíssimo prédio na Rua Naif. Ela passa meia hora só olhando para a portaria até ter coragem de ir até o porteiro, que se encontra do lado de fora do prédio agora, mas ela não vai. Ela tira a mão da chave finalmente, isso foi difícil. Quinze minutos depois ela encontra a força para tirar a mão do volante. "Deus, como é difícil se mexer". A mão do volante não vai à coxa, como a das chaves, não, essa ruma para a maçaneta. Em apenas três minutos ela está do lado de fora do carro. Com a porta fechada! Olhando para o prédio novamente. O porteiro a reconhece e meneia com a cabeça, ela lhe responde com um aceno breve. Ela não pode, não consegue. London quer pegar as chaves, entrar no carro e ir embora. Novamente ela não vai. Ela só começa a andar, imediatamente, rua acima.
Rua acima também segue nosso jovem amigo, com um cigarro na boca e nenhuma voz na garganta. "Que noite! Sonho de uma noite de verão, só que é outono, ainda assim: Que noite, que sonho...!" Quem se importa? Sua noite havia começado com dúvida e agora terminava com a certeza. Ele caminha certeiro. Sabe que a vida vai continuar e coisas muito piores virão. Ele não está nem ai. Pensando nisso ele começa a dançar ao som de um quarteto de cordas que toca para os clientes de alguma padaria de luxo que oferece ótimos cafés da manhã. "Eu comeria" e ele entra no café mais próximo.
O chão fica ótimo com as pétalas. Para que tirá-las então? José apenas as espalha para que todo o chão fique coberto por pequenas partículas de flores. "O dia-dos-namorados está logo ai, que mal pode fazer um pouco de romance em nossas vidas?" Ele rega as plantas, corta as que precisam ser aparadas, troca a água das que já foram cortadas e sonha acordado com sua falecida esposa, com seu cheiro inebriante, seu olhar hipnotizante, seu amor suado, seu beijo molhado, seus corpos colados... A sineta da porta toca. Ele se vira com um sorriso no rosto e encontra uma menina chorando em sua frente. Roupa em frangalhos, maquiagem borrada, cabelos sujos de terra e folhagem, olhos inchados, boca ensangüentada, hematomas e sangue. Tudo está perdido.
"Não faça um som, entre, compre girassóis e saia, ninguém vai notá-la" London quer ter um presente em suas mãos para encontrá-lo. Antigamente ela só levava um sonho, agora sentia que queria dar-lhe algo mais. A banca de flores mais próxima ficava na Avenida Fellini, então ela caminhou até lá. Conversou com a adorável dona da banca que lhe fez um ótimo preço por ser uma companheira florista nas ruas tão cinza da cidade. E começou seu caminho de volta, com um passo lento novamente ela desliza pelas ruas da cidade, leve como se nada pudesse impedi-la ou lhe atrapalhar. Como se nem o céu pudesse novamente esconder o raiar do sol.
Ele toma seu café sem pressa. Amanhã, ou melhor hoje, não é preciso trabalhar. Ele beberica seu expresso enquanto um sanfoneiro toca do outro lado da praça. A cidade toca pela manhã, a música traz a vida para as ruas e com a vida vem às flores, o amor, o sabor, o calor... Vem tudo, tudo menos London. Será que ela pode ouvir sua música? Será que ele ainda pode alcançá-la a um oceano de distância? Mal sabe ele. "Vai chover" ela lhe disse olhando pela janela, ele tocou gentilmente seus quadris, abraçando-a por trás, beijou seu pescoço e sussurrou em seu ouvido "Vamos sobreviver!", ela não tinha certeza disso, mas queria acreditar. Queria muito acreditar. Então se virou em seus braços, passou as mãos em torno de seu pescoço e o beijou como se aquele fosse o ultimo instante de sua vida. Como se aquele fosse seu ultimo beijo bem quisto.Ela o guiou até a cama, eles se deitaram e fizeram amor naquele momento. Algo lindo e memorável. Por que agora aquelas memórias o atacavam? Ela saiu pela porta e eles nunca mais se viram desde então. Isso foi mais ou menos a época em que ele começou a escrever intensamente. Escrever e beber, como fizera na noite anterior.
Rua abaixo, num caminho sem volta. Ele odeia a própria vida. Odeia seu trabalho, odeia seus amigos... humf... ele não tem amigos. Ao menos não tão sinceros quanto aquele moleque com quem passara a noite anterior. Odeia ter terminado seu casamento, odeia a cidade que o abriga, ele odeia muitas coisas em sua vida. E ele está desesperado. Desesperado ao som de um arcodeon junto da praça central. Que piegas. "Eu deveria tomar um banho". Nosso quaternário colega para em um café, compra uma garrafa de vinho e bebe na praça, sozinho ao som de um acordeon. A cidade de repente não lhe parece tão infernal. "Se embriagar pela manhã para ir trabalhar com o dinheiro dos outros, esse é o sonho de qualquer otário que eu conheço". O tempo demora a passar. Dez da manhã: Ele não quer mais viver sua vida. Tem algum dinheiro guardado, mais do que precisaria para passar uma vida inteira muito bem. "Que se dane, eu não quero mais minha vida..." Vagarosamente ele se levanta e começa a andar. Sem acordeons de fundo, sem quarteto de cordas ou metais ele simplesmente se levanta e começa a andar, dando as costas para sua vida antiga, se perdendo nas ruas da cidade.
Ela finalmente alcança o prédio de apartamentos novamente e agora ela tem coragem para falar com o porteiro. Ele não está. Passou a noite fora e ainda não voltou. O olhar dela cai entristecido. "Tudo bem". Ela volta para o carro. Ela deveria seguir em frente. Não vai. O tempo passa e seu olhar está fixo na portaria. Seus olhos estão pesados. Seu coração, tão triste. Ela adormece em seu carro. Sonhos conturbados de uma vida que nunca existiu. O tamborilar das gotas de chuva a acorda. Já passa do meio dia. Pingos grossos caem sobre a cidade. Ela pega seus girassóis e ruma novamente a portaria. "Ele ainda não chegou, querida. Mas você gostaria de entrar?". Ela permanece sozinha na chuva no meio da calçada.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

London

Dois estranhos caminham por uma rua estreita, lado a lado sem falar nada eles se compreendem e de um jeito estranho conversam ininterruptamente um com outro. A cidade pode ser sorrateira, às vezes ela nos derruba sem expectativa nenhuma da queda. "As melhores conversas, às vezes, acontecem em silencio", como essa. Não é um monólogo, em que cada pessoa esperando pela sua vez de falar, não... É uma enorme conversa em silêncio. Ao contrario do que podemos pensar não é aquele silêncio estranho causado pela falta de intimidade, não... Eles só... Optaram por não dizer nenhuma palavra apesar de estarem em completo entendimento. Eles bebericam em uma garrafa empacotada com uma sacola de papel e seguem em frente, pensando em conjunto sobre a vida, o amor, deus, o diabo, coisas desse gênero: vago. 

Do outro lado da cidade uma garota entra em uma floricultura a meia noite, ela abre a porta com cuidado e caminha por entre aquele ambiente cheio de cheiros e sabores esperando por um milagre, como se aquelas fragrâncias pudessem purgá-la de suas fraquezas. Como se ela pudesse, a partir daquele momento acabar com todos os seus problemas. Mas ela não pode. Ela para por um instante. Senta, abraçando seus joelhos no centro da loja. E chora em silêncio. Uma pétala de rosa toca seu ombro. Outra seu ventre. Outra seus cílios. Outra seus joelhos. Está chovendo pétalas de rosas dentro da floricultura azul da rua dos ingleses e onde uma garota chorava em silêncio outra sorri, em seu lugar, sonoramente deslumbrada. Agora ela cantarola. E José, o zeloso zelador que fora acordado por sua patroa que se esqueceu de sua presença na loja, não se importa que amanhã ele limpará toda a sujeira que ele causou e ela nunca imaginará que aquilo não foi exatamente um milagre.

José gosta da magia da vida, mas na sabedoria de seus sessenta e tantos anos ele perdeu a esperança nela. Bem não completamente. Manter a crença dos outros viva, a todo o momento é a sua maneira de ainda acreditar nela. Ele nunca dirá isso a ninguém até um dia lindo de outono quando ele sentir o dedo frio da morte se aproximar de si. Então ele contará seu único segredo a uma enfermeira frigida que não lhe dará ouvidos. No dia seguinte ele morrerá sabendo que seu legado para seus netos e seus bisnetos foi manter a magia viva em algum lugar onde ela deveria estar morta há muito tempo.

E aqueles dois se embriagam e caem pelas pequenas e labirínticas ruas da cidade. O velho se apóia em uma enorme lata de lixo e vomita ao seu lado, o jovem ri e lhe toma a garrafa. Vazia. O dia deveria amanhecer em algum momento. A rua termina em outra. Eles estão cansados, há muito tempo eles caminham sem rumo. Sem dizer nada eles simplesmente se sentam a sarjeta, trocam a garrafa às vezes, mas nunca palavras. Não seria necessário. Os olhos de nosso amigo que acabou de vomitar incham. Ele está muito bravo com sua perda e quer chorar, mas ao invés disso ele se levanta em um pulo e grita a plenos pulmões. "Ele quer acordar a cidade e mandá-los todos explodirem e o deixarem em paz" o outro pensa. Ele grita, e grita e grita e grita e grita e grita e grita. A cidade não se move, seu sono está intangível a voz de um único homem. O outro se levanta, joga a garrafa para muito longe, ladeira abaixo, e corre em auxilio de seu novo amigo que já está cansado e quase sem voz. 

"Aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh....."

Ela gira sobre seus pés. Como se a chuva de pétalas continuasse para sempre ela fecha seus olhos e se imagina em um mundo perfeito. E ao abrir os olhos ela olha cada detalhe, cada falha, cada erro em sua loja, em sua vida com mais paixão. Essa menina acaba de descobrir que ela não poderia viver em um mundo perfeito porque ela ama demais cada pequeno defeito que faz da vida a vida, da vida a beleza. Ela se senta novamente sobre o chão de rosas e enquanto brinca de pegar, erguer e soltar infinitamente as pétalas reflete sobre como acertar as coisas erradas que a incomodam.