quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

London

Dois estranhos caminham por uma rua estreita, lado a lado sem falar nada eles se compreendem e de um jeito estranho conversam ininterruptamente um com outro. A cidade pode ser sorrateira, às vezes ela nos derruba sem expectativa nenhuma da queda. "As melhores conversas, às vezes, acontecem em silencio", como essa. Não é um monólogo, em que cada pessoa esperando pela sua vez de falar, não... É uma enorme conversa em silêncio. Ao contrario do que podemos pensar não é aquele silêncio estranho causado pela falta de intimidade, não... Eles só... Optaram por não dizer nenhuma palavra apesar de estarem em completo entendimento. Eles bebericam em uma garrafa empacotada com uma sacola de papel e seguem em frente, pensando em conjunto sobre a vida, o amor, deus, o diabo, coisas desse gênero: vago. 

Do outro lado da cidade uma garota entra em uma floricultura a meia noite, ela abre a porta com cuidado e caminha por entre aquele ambiente cheio de cheiros e sabores esperando por um milagre, como se aquelas fragrâncias pudessem purgá-la de suas fraquezas. Como se ela pudesse, a partir daquele momento acabar com todos os seus problemas. Mas ela não pode. Ela para por um instante. Senta, abraçando seus joelhos no centro da loja. E chora em silêncio. Uma pétala de rosa toca seu ombro. Outra seu ventre. Outra seus cílios. Outra seus joelhos. Está chovendo pétalas de rosas dentro da floricultura azul da rua dos ingleses e onde uma garota chorava em silêncio outra sorri, em seu lugar, sonoramente deslumbrada. Agora ela cantarola. E José, o zeloso zelador que fora acordado por sua patroa que se esqueceu de sua presença na loja, não se importa que amanhã ele limpará toda a sujeira que ele causou e ela nunca imaginará que aquilo não foi exatamente um milagre.

José gosta da magia da vida, mas na sabedoria de seus sessenta e tantos anos ele perdeu a esperança nela. Bem não completamente. Manter a crença dos outros viva, a todo o momento é a sua maneira de ainda acreditar nela. Ele nunca dirá isso a ninguém até um dia lindo de outono quando ele sentir o dedo frio da morte se aproximar de si. Então ele contará seu único segredo a uma enfermeira frigida que não lhe dará ouvidos. No dia seguinte ele morrerá sabendo que seu legado para seus netos e seus bisnetos foi manter a magia viva em algum lugar onde ela deveria estar morta há muito tempo.

E aqueles dois se embriagam e caem pelas pequenas e labirínticas ruas da cidade. O velho se apóia em uma enorme lata de lixo e vomita ao seu lado, o jovem ri e lhe toma a garrafa. Vazia. O dia deveria amanhecer em algum momento. A rua termina em outra. Eles estão cansados, há muito tempo eles caminham sem rumo. Sem dizer nada eles simplesmente se sentam a sarjeta, trocam a garrafa às vezes, mas nunca palavras. Não seria necessário. Os olhos de nosso amigo que acabou de vomitar incham. Ele está muito bravo com sua perda e quer chorar, mas ao invés disso ele se levanta em um pulo e grita a plenos pulmões. "Ele quer acordar a cidade e mandá-los todos explodirem e o deixarem em paz" o outro pensa. Ele grita, e grita e grita e grita e grita e grita e grita. A cidade não se move, seu sono está intangível a voz de um único homem. O outro se levanta, joga a garrafa para muito longe, ladeira abaixo, e corre em auxilio de seu novo amigo que já está cansado e quase sem voz. 

"Aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh....."

Ela gira sobre seus pés. Como se a chuva de pétalas continuasse para sempre ela fecha seus olhos e se imagina em um mundo perfeito. E ao abrir os olhos ela olha cada detalhe, cada falha, cada erro em sua loja, em sua vida com mais paixão. Essa menina acaba de descobrir que ela não poderia viver em um mundo perfeito porque ela ama demais cada pequeno defeito que faz da vida a vida, da vida a beleza. Ela se senta novamente sobre o chão de rosas e enquanto brinca de pegar, erguer e soltar infinitamente as pétalas reflete sobre como acertar as coisas erradas que a incomodam.

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