O dia finalmente nasceu e London com um pé na frente do outro sai da floricultura azul da Rua dos Ingleses. Ela sabe o que deve fazer agora, mas não está exatamente certa a respeito de como fazê-lo, mas isso não lhe importa na verdade. Ela desliza vagarosamente pela calçada, como se tivesse todo tempo do mundo. Alcança seu carro, pega as chaves e parte em sua tarefa, melhor não dormir, ela sempre pensa melhor antes de dormir do que depois de acordar. Acabada a festa José apenas se levanta de sua cama no fundo da floricultura, ele se levanta resoluto a fazer aquele lugar brilhar, na manhã citadina ensolarada aquela floricultura estará belíssima. José entra na loja apenas para ouvir o sino avisando que sua patroa acabara de sair pela porta, ela nem se lembrara de trancar sua loja, os ramos dançam para ele, as flores cantam e ele começa a limpar a loja cantarolantemente feliz.
A cidade finalmente se agita, mas não graças aos gritos sem voz de nossos dois companheiros. "Acho que exageramos", diz a voz rouca semi-anciã. "Muita coca?", responde baixo a jovem finda voz. E os dois gargalham no meio da rua. Não lhes importam mais suas perdas, seus sonhos despedaçados, suas noites em claro. "Bem, meu caro, foi um prazer. Mas com o dia eu devo seguir trabalhar e você precisa dormir até o dia morrer novamente", diz o primeiro depois de alguns minutos. O garoto de uns vinte e poucos anos lhe aperta a mão, lhe abraça e com um olhar sorridente lhe agradece. O ancião desce a ladeira, pelo meio da rua, e o garoto sobe. Eles se encontrarão novamente, em algum lugar de suas vidas, mesmo que esse lugar seja apenas suas memórias.
London estaciona em frente a um antiqüíssimo prédio na Rua Naif. Ela passa meia hora só olhando para a portaria até ter coragem de ir até o porteiro, que se encontra do lado de fora do prédio agora, mas ela não vai. Ela tira a mão da chave finalmente, isso foi difícil. Quinze minutos depois ela encontra a força para tirar a mão do volante. "Deus, como é difícil se mexer". A mão do volante não vai à coxa, como a das chaves, não, essa ruma para a maçaneta. Em apenas três minutos ela está do lado de fora do carro. Com a porta fechada! Olhando para o prédio novamente. O porteiro a reconhece e meneia com a cabeça, ela lhe responde com um aceno breve. Ela não pode, não consegue. London quer pegar as chaves, entrar no carro e ir embora. Novamente ela não vai. Ela só começa a andar, imediatamente, rua acima.
Rua acima também segue nosso jovem amigo, com um cigarro na boca e nenhuma voz na garganta. "Que noite! Sonho de uma noite de verão, só que é outono, ainda assim: Que noite, que sonho...!" Quem se importa? Sua noite havia começado com dúvida e agora terminava com a certeza. Ele caminha certeiro. Sabe que a vida vai continuar e coisas muito piores virão. Ele não está nem ai. Pensando nisso ele começa a dançar ao som de um quarteto de cordas que toca para os clientes de alguma padaria de luxo que oferece ótimos cafés da manhã. "Eu comeria" e ele entra no café mais próximo.
O chão fica ótimo com as pétalas. Para que tirá-las então? José apenas as espalha para que todo o chão fique coberto por pequenas partículas de flores. "O dia-dos-namorados está logo ai, que mal pode fazer um pouco de romance em nossas vidas?" Ele rega as plantas, corta as que precisam ser aparadas, troca a água das que já foram cortadas e sonha acordado com sua falecida esposa, com seu cheiro inebriante, seu olhar hipnotizante, seu amor suado, seu beijo molhado, seus corpos colados... A sineta da porta toca. Ele se vira com um sorriso no rosto e encontra uma menina chorando em sua frente. Roupa em frangalhos, maquiagem borrada, cabelos sujos de terra e folhagem, olhos inchados, boca ensangüentada, hematomas e sangue. Tudo está perdido.
"Não faça um som, entre, compre girassóis e saia, ninguém vai notá-la" London quer ter um presente em suas mãos para encontrá-lo. Antigamente ela só levava um sonho, agora sentia que queria dar-lhe algo mais. A banca de flores mais próxima ficava na Avenida Fellini, então ela caminhou até lá. Conversou com a adorável dona da banca que lhe fez um ótimo preço por ser uma companheira florista nas ruas tão cinza da cidade. E começou seu caminho de volta, com um passo lento novamente ela desliza pelas ruas da cidade, leve como se nada pudesse impedi-la ou lhe atrapalhar. Como se nem o céu pudesse novamente esconder o raiar do sol.
Ele toma seu café sem pressa. Amanhã, ou melhor hoje, não é preciso trabalhar. Ele beberica seu expresso enquanto um sanfoneiro toca do outro lado da praça. A cidade toca pela manhã, a música traz a vida para as ruas e com a vida vem às flores, o amor, o sabor, o calor... Vem tudo, tudo menos London. Será que ela pode ouvir sua música? Será que ele ainda pode alcançá-la a um oceano de distância? Mal sabe ele. "Vai chover" ela lhe disse olhando pela janela, ele tocou gentilmente seus quadris, abraçando-a por trás, beijou seu pescoço e sussurrou em seu ouvido "Vamos sobreviver!", ela não tinha certeza disso, mas queria acreditar. Queria muito acreditar. Então se virou em seus braços, passou as mãos em torno de seu pescoço e o beijou como se aquele fosse o ultimo instante de sua vida. Como se aquele fosse seu ultimo beijo bem quisto.Ela o guiou até a cama, eles se deitaram e fizeram amor naquele momento. Algo lindo e memorável. Por que agora aquelas memórias o atacavam? Ela saiu pela porta e eles nunca mais se viram desde então. Isso foi mais ou menos a época em que ele começou a escrever intensamente. Escrever e beber, como fizera na noite anterior.
Rua abaixo, num caminho sem volta. Ele odeia a própria vida. Odeia seu trabalho, odeia seus amigos... humf... ele não tem amigos. Ao menos não tão sinceros quanto aquele moleque com quem passara a noite anterior. Odeia ter terminado seu casamento, odeia a cidade que o abriga, ele odeia muitas coisas em sua vida. E ele está desesperado. Desesperado ao som de um arcodeon junto da praça central. Que piegas. "Eu deveria tomar um banho". Nosso quaternário colega para em um café, compra uma garrafa de vinho e bebe na praça, sozinho ao som de um acordeon. A cidade de repente não lhe parece tão infernal. "Se embriagar pela manhã para ir trabalhar com o dinheiro dos outros, esse é o sonho de qualquer otário que eu conheço". O tempo demora a passar. Dez da manhã: Ele não quer mais viver sua vida. Tem algum dinheiro guardado, mais do que precisaria para passar uma vida inteira muito bem. "Que se dane, eu não quero mais minha vida..." Vagarosamente ele se levanta e começa a andar. Sem acordeons de fundo, sem quarteto de cordas ou metais ele simplesmente se levanta e começa a andar, dando as costas para sua vida antiga, se perdendo nas ruas da cidade.
Ela finalmente alcança o prédio de apartamentos novamente e agora ela tem coragem para falar com o porteiro. Ele não está. Passou a noite fora e ainda não voltou. O olhar dela cai entristecido. "Tudo bem". Ela volta para o carro. Ela deveria seguir em frente. Não vai. O tempo passa e seu olhar está fixo na portaria. Seus olhos estão pesados. Seu coração, tão triste. Ela adormece em seu carro. Sonhos conturbados de uma vida que nunca existiu. O tamborilar das gotas de chuva a acorda. Já passa do meio dia. Pingos grossos caem sobre a cidade. Ela pega seus girassóis e ruma novamente a portaria. "Ele ainda não chegou, querida. Mas você gostaria de entrar?". Ela permanece sozinha na chuva no meio da calçada.
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